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Redes Sociais 4 min de leitura

O Efeito Pigmaleão: cuidado com quem te trata como pequeno demais

Gabriel Souli

Guerrilha Digital

Instagram de Gabriel Souli

Existe uma coisa curiosa sobre a forma como somos vistos pelas pessoas ao nosso redor. Às vezes, ninguém precisa nos impedir diretamente. Ninguém precisa dizer “não faça”, “não tente” ou “isso não é para você”. Basta que alguém nos trate, todos os dias, como se fôssemos menores do que realmente somos.

Com o tempo, esse olhar pode virar uma espécie de espelho. E quando uma pessoa se olha por tempo demais em um espelho pequeno, corre o risco de começar a acreditar que aquele é o seu tamanho real.

Essa é uma forma simples de entender o chamado Efeito Pigmaleão. A ideia nasce de um mito grego sobre Pigmaleão, um escultor que criou uma estátua tão perfeita que acabou se apaixonando por ela. Segundo o mito, ele acreditou tanto naquela imagem ideal que a estátua ganhou vida. Séculos depois, a psicologia pegou essa metáfora emprestada para falar sobre algo bem concreto: as expectativas que uma pessoa tem sobre outra podem influenciar a maneira como ela se comporta com essa pessoa.

Um dos estudos mais conhecidos sobre isso é Pygmalion in the Classroom, publicado em 1968 por Robert Rosenthal e Lenore Jacobson - clique aqui para ver o .PDF do estudo completo. Na pesquisa, professores foram informados de que alguns alunos tinham grande potencial de crescimento intelectual. O detalhe importante é que esses alunos haviam sido escolhidos aleatoriamente.

Eles não eram, necessariamente, os melhores da turma. Mesmo assim, passaram a ser vistos pelos professores como alunos com alto potencial. Com o tempo, parte desses alunos apresentou melhora no desempenho, o que levou os pesquisadores a discutir como as expectativas dos professores poderiam influenciar a forma como eles tratavam os estudantes. O artigo original pode ser acessado aqui:

O ponto mais interessante não é pensar nisso como mágica, porque não é. O que acontece é mais sutil. Quando alguém acredita que você é capaz, essa pessoa tende a te tratar de outro jeito. Ela pode ter mais paciência, explicar melhor, abrir mais espaço, dar mais oportunidade e enxergar progresso onde outras pessoas só veriam erro. Aos poucos, a expectativa vira tratamento. O tratamento influencia comportamento. E o comportamento, repetido no tempo, pode influenciar resultado.

Isso tem muito a ver com criação de conteúdo e marketing digital. Muita gente não trava porque falta ideia, repertório ou capacidade. Trava porque passou tempo demais ouvindo uma versão pequena de si mesma. Quando alguém escuta muitas vezes que “não leva jeito para aparecer”, que “esse mercado já está saturado” ou que “ninguém vai assistir isso”, essas frases deixam de ser apenas comentários e começam a virar roteiro interno.

A pessoa publica com medo, suaviza a própria opinião, copia formatos que não combinam com ela e evita se posicionar para não parecer grande demais.

O mesmo acontece com marcas também. Existem empresas que se comunicam como pequenas não porque são pequenas, mas porque alguém convenceu aquela marca de que ela não tinha nada relevante para dizer. A comunicação vira burocrática, genérica e sem ponto de vista. A marca aparece apenas para vender, mas não constrói narrativa, não educa o mercado e não cria uma presença memorável.

Quando uma marca começa a ser tratada como uma marca com voz, visão e repertório, a comunicação muda. Ela para de pedir atenção e começa a merecer atenção.

Claro que o Efeito Pigmaleão precisa ser entendido com cuidado. O estudo original ficou famoso, mas também foi debatido e revisado ao longo dos anos. Pesquisadores como Lee Jussim e Kent Harber analisaram o tema das expectativas e profecias autorrealizáveis em sala de aula, mostrando que os efeitos existem, mas são mais complexos e contextuais do que a versão popular costuma sugerir. Essa revisão pode ser lida aqui: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15869379/

Ainda assim, a reflexão continua muito valiosa. O jeito que alguém te enxerga pode mudar o jeito que essa pessoa te trata. E o jeito que você é tratado, principalmente quando isso se repete por muito tempo, pode influenciar a forma como você age, cria, se posiciona e ocupa espaço no mundo.

Para quem cria conteúdo, constrói uma marca ou tenta colocar uma ideia de pé, talvez a pergunta mais importante seja: quem você está deixando narrar a sua capacidade? Porque existem pessoas que te chamam pelo medo, pelo passado e pela insegurança. Mas também existem pessoas que te chamam pelo futuro. E, com o tempo, você começa a responder pelo nome que mais ouviu.

No fim, talvez uma das maiores viradas na criação de conteúdo, no marketing e na vida seja parar de caber no olhar de quem nunca teve coragem de te enxergar grande.

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